por que este livro existe
Contos de Cuba é um livro de pequenas histórias imaginadas a partir de fotografias que fiz na ilha caribenha. Quem escreve são roteiristas de cinema formadas e formados na Escuela Internacional de Cine y TV de San Antonio de Los Baños (EICTV), no ocidente cubano, onde estudei Direção de Fotografia. Eles estão acostumados a escrever para que se produzam imagens e sons em movimento, e aqui proponho o exercício de histórias inventadas a partir de fotografias estáticas de minhas andanças pelo país.
A ideia tem uma origem anterior. Numa disciplina chamada Oficina de Texto da professora Dione Moura, na Faculdade de Comunicação da UnB, onde me formei em jornalismo, fizemos contos a partir das fotografias de Sebastião Salgado na exposição Êxodos, e inventar uma história a partir de uma imagem documental me fascinou. Quando terminei o curso na EICTV, tinha um punhado de fotos de Cuba: de Havana e San Antonio de Los Baños, de viagens pela ilha, e de uma travessia de bicicleta com dois amigos de Havana a Santiago de Cuba em doze dias de estrada. A ideia de um livro ficou adormecida por alguns anos, até que em dezembro de 2016, ao retornar a Cuba para apresentar um curta no Festival de Cinema, senti a necessidade de retomá-la: um livro onde a ficção e o documental se encontram para contar, de muitas vozes, uma Cuba real e inventada. Percebi que o mais interessante seria chamar roteiristas vinculados, como eu, à EICTV para inventarem histórias a partir das minhas fotos.
Cada autora e autor teve liberdade para escolher a imagem para escrever suas peças dentro da curadoria de fotos realizada pelo premiado fotógrafo Olivier Boëls, entre imagens analógicas e digitais, preto e branco e coloridas. Há imagens de 2006 a 2016, entre meus três anos de estudo — 2006 a 2009 — e duas visitas posteriores em 2012 e 2016. Entre cubanos e estrangeiros que viveram pelo menos três anos estudando no curso regular da escola, o olhar é variado e as escritas são plurais. Fundada por Fernando Birri, Gabriel García Márquez, Julio García Espinosa e outros gigantes do cinema latino-americano, a EICTV é uma escola anti-escolástica situada numa área rural a uma hora de Havana, que reúne pessoas do mundo inteiro para mergulhar no fazer cinematográfico e vivenciar a ilha. Dessa Babel vieram os contos que você vai ler.
Pensamos uma ordem de leitura a partir das relações entre as histórias. O conto vem antes da foto, para que você entre na história antes de ver a imagem que a inspirou; só então a fotografia revela o que a escrita já abriu. Sabemos também que regras podem ser quebradas e um livro de contos também convida a uma leitura fora de ordem, pois como bom mosaico, as peças são diferentes entre si e também funcionam livres ou agrupadas em outros arquipélagos possíveis.
David Alves, Brasília, 2026